Je suis Charlie, porém…

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Mal começou o ano e já temos a primeira tragédia, 12 pessoas da equipe responsável pela controvérsia revista Charlie Hebdo foram mortas a tiros em um atentado no dia sete de janeiro em Paris. De acordo com a imprensa o principal motivo foi que a revista retratou o profeta do islamismo, Maomé, de maneira satírica, provocando revolta por parte de radicais islâmicos. Um dos princípios da religião é que o profeta Maomé não pode ser retratado de maneira nenhuma. Cartunistas, artistas e humoristas se sensibilizaram com a situação e divulgaram em seus perfis as seguintes palavras “Je suis so Charles”.

O ocorrido trouxe à tona a discussão sobre as consequências do humor politicamente incorreto e o limite da liberdade de expressão. Sabemos bem a repercussão que esse tipo de humor traz, no Brasil, tivemos casos que atraíram a atenção nacional encabeçados pelos humoristas Danilo Gentili e Rafinha Bastos.

Gentilli chocou a opinião pública quando fez uma piada em seu twitter comparando jogadores de futebol com o gorila King Kong, e Rafinha, em seu Stand Up, afirmou que mulheres feias deveriam agradecer por serem estupradas.

No caso da revista Charles, ela é conhecida por conter em seu conteúdo piadas que para muitos seriam consideradas de mau gosto. Não é incomum em suas capas caricaturas satirizando não só o islamismo, como instituições religiosas como a Igreja Católica e até algumas minorias. Quando a ministra francesa Christiane Taubira foi chamada de macaco por um político do partido da frente direitista  em uma resposta bem questionável a revista expô uma charge onde a ministra aparecia caracterizada como um macaco.

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Casos como estes são exemplos do porquê alguns críticos duvidam das intenções de quem faz esse tipo de humor. Para eles o grande problema é que apenas alguns tipos de personas são escolhidas para serem o motivo das piadas e geralmente personas que fazem parte de minorias, o que acaba reforçando preconceitos já bastante institucionalizados na nossa cultura.

Por outro lado humoristas questionam o porquê determinados temas são proibidos. Para alguns a consequência é que por não se falar do assunto o tom de segregação é reforçado impedido de tratar o tema como igual e o colocando em um status de sagrado. Assim como proibir o humorista de falar sobre certo assunto atinge a sua liberdade individual sendo uma forma de censurá-lo.

Ambos os questionamentos têm seus fundamentos, se por um lado há um certo receio das verdadeiras intenções do humorista com determinada piada, no outro, não seria justo que apenas alguns assuntos fossem o motivo da piada. Porém um humorista, seja ele em cima do palco ou produzindo uma charge, tem um poder de alcance e deve ter a consciência de que também tem a responsabilidade sobre a repercussão de sua piada. E dependendo, ela pode sim gerar revoltas e críticas, mas não censura.

No final das contas o bom senso deve prevalecer, ter liberdade de expressão não significa que você falará tudo o que vier a sua cabeça e ninguém poderá reagir a isso, assim como usar a violência ou obrigar o outro a se calar como forma de reação nunca será justificado. O que aconteceu em Charles põe em cheque que na sociedade atual com tantas culturas e costumes diferentes para manter a civilidade é preciso um equilíbrio entre respeito e liberdade. E assegurar a civilidade, deve estar acima de qualquer coisa.

Links de dois textos sobre o assunto que valem a pena:

http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,tem-gente-que-imp-,1621465

https://leonardoboff.wordpress.com/2015/01/10/eu-nao-sou-charlie-je-ne-suis-pas-charlie-pe-antonio-piber/

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