Sobre a bolha que vivemos

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Era começo de novembro de 2016, todos estavam apreensivos com as eleições dos Estados Unidos. De repente, o impossível aconteceu. O homem que pelas centenas de declarações polêmicas foi alvo de piada por parte da mídia americana, Donald Trump, magnata, apresentador de reality show e multimilionário, ganhou as eleições de uma das maiores potências do mundo.

Claro que aquilo parecia um pesadelo, Trump estava concorrendo com Hillary Clinton, ex-secretária de Estado da era Obama. Uma mulher com uma bagagem de governo, propostas sensatas e ainda por cima era casada com um dos ex-presidentes, Bill Clinton. Querendo ou não, ela tinha uma certa credibilidade por já ter passado pela experiência mesmo que não diretamente.

Foi uma surpresa que os EUA tenham candidatado, para um cargo tão importante, alguém como o Trump, inclusive, para mim, que mesmo com a falta de conhecimento das verdadeiras aspirações americanas (culpo em parte os seriados), jamais imaginei que eles fariam algo assim.

Entretanto, à medida que os dias passavam e o susto foi digerido, pude notar como de certa forma eu havia me equivocado. E isso tem muito mais a ver com a minha visão de mundo e com os meus relacionamentos do que exatamente em como as coisas realmente são.

Durante a campanha presidencial americana, li um texto muito interessante que falava sobre como era importante ouvir o lado do eleitorado de Trump. A parte da população republicana que é branca e não quer mais que imigrantes roubem suas oportunidades, por assim dizer.

Claro, esse é um resumo bem simples, o texto entra justamente nessa questão de tentar entender que essas pessoas também têm suas necessidades e que ainda sofrem consequências da crise de 2008.

Depois que li o texto, em um primeiro momento, fiquei indignada. Como eles acham que devem segregar os outros? Afinal, qual é o problema de estrangeiros viveram nos EUA? Todos sabem que boa parte dos EUA foram feitos de imigrantes, principalmente, ingleses que instalaram suas colônias lá. Novamente entro na questão de como uma visão de mundo pode afetar tudo.

Continuo concordando com a ideia que não se deve haver segregação, porém, quando terminei de ler, passei a notar como não tinha passado pela minha cabeça que eles, os contrários, não eram poucos e tinham seus motivos. A minha visão de mundo me impedia de ver que não era uma minoria que não estava satisfeita e sim um número grande o suficiente para, como vimos, afetar as eleições dos EUA.

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Após um tempo, comecei a ler algumas matérias sobre como o Facebook influenciou no resultado da eleição com os seus algoritmos. A palavra “bolha” foi a escolhida para explicar como os algoritmos restringem o usuário a uma pequena parcela do seu feed, geralmente, composto por ideais e pessoas que concordam com a sua opinião, criando assim uma sensação de estar sempre certo. Ou seja, estar em uma bolha.

Essa ideia de algoritmo surgiu por volta dos anos noventa, e foi a Amazon que conseguiu tornar real um conceito de filtro bolha. A ideia principal era que os consumidores de livro tivessem na loja online uma espécie de livreiro virtual que pudesse recomendar os produtos de acordo com os seus gostos. Entretanto, para isso, foi preciso criar um algoritmo capaz de registrar as atividades dos consumidores.

Desde então, essa mesma estratégia é usada em redes sociais e até em sites de streaming. Muitos pesquisadores criticam bastante essa política, já que mantém os usuários presos em uma ilusão, por assim dizer.

Pensando sobre a bolha do mundo virtual, cheguei à conclusão que no mundo real não é muito diferente. Afinal de contas, pense em todos os seus amigos e pessoas que convivem com você. Quantas delas têm opiniões opostas a sua e, principalmente, quantas dizem isso abertamente.

Tirando os parentes que, em muitos casos, costumam mesmo ter uma opinião diferente sobre determinados assuntos, os outros, amigos e colegas, habitualmente, têm muito mais em comum conosco do que qualquer um. À medida que passamos muito tempo com eles, podemos até considerar que isso é o todo e que os poucos que não compartilham das nossas opiniões são uma minoria distante.

A nossa própria bolha de convivência, assim como os algoritmos na internet, também pode nos trazer para esse abismo de segurança em relação as nossas opiniões. Algumas vezes, podemos desdenhar de pontos de vistas muito opostos porque eles não fazem parte do nosso círculo e porque apenas uma ou duas pessoas que conhecemos as compactuam. Mas isso pode ser uma armadilha que traz resultados reais.

No fim das contas, a conclusão é que não há como escapar da bolha seja ela virtual ou real, porém, podemos nos policiar para não achar que apenas aquilo que nos convém é o todo. É preciso ter discernimento para observar as tendências, evitando assim surpresas com situações que sempre estiveram ai, mesmo que fora das nossas bolhas.

Segue alguns links interessantes sobre o assunto bolha:

http://www.revistaforum.com.br/2016/11/16/como-as-bolhas-decidem-eleicoes-por-joao-carlos-caribe/  

http://www.meioemensagem.com.br/home/midia/2016/09/02/qual-o-papel-de-algoritmos-em-plataformas-digitais.html 

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/politica/noticia/2016/11/como-as-redes-sociais-formam-bolhas-de-radicalizacao-e-intolerancia-8377226.html

https://www.tecmundo.com.br/facebook/112450-fugir-bolha-facebook.htm

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A mulher na mídia

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Por mais que tenhamos avançado nas questões de igualdade de gênero parece que, quando se trata de meios de comunicação, o retrato da mulher ainda é distorcido. Não só em meios, como a publicidade, que sempre usam a imagem da mulher para promover os seus produtos, como no jornalismo, que ao invés de informar, acaba mais desinformando ao reforçar estereótipos de como elas são.

Isso, obviamente, não acontece só no Brasil, não precisa ir muito longe para descobrir que a maneira como a mulher é retratada na mídia é bem pejorativa e poderia dizer que isso até uma tendência mundial.

Existem muitos exemplos sobre como a representação da mulher ainda é bem desagradável se comparada com a do homem. Ainda mais, se estivermos falando de pessoas de ambos os sexos que ocupam cargos iguais, fica evidente como o tratamento é diferente, mesmo em situações semelhantes.

A presidenta Dilma Rousseff (que atualmente se encontra afastada do cargo) é um dos grandes modelos de como a mídia pode reforçar estereótipos. O fato da presidenta ser uma mulher, dá margem para que o destaque em relação a sua imagem pública seja apenas para coisas irrelevantes. Não era incomum encontrar matérias sobre o peso de Dilma ou até mesmo seus passeios de bicicleta.

Além disso, por causa da crise que ocorreu em seu governo capas de revistas costumavam retratá-la perdendo o controle ou histérica, um estereótipo há muito associado à mulheres. Esse mesmo tratamento, não foi dado ao presidente interino Michel Temer quando esse disse estar sofrendo de pressões psicológicas por causa da oposição.

Outro exemplo, são as matérias onde o assunto é sobre violência contra a mulher. Nesses casos, é normal encontrar uma tentativa de pôr em dúvida o discurso da vítima. Expressões do tipo: “Declarou suposta agressão”, “suposto estupro” são padrões, mesmo se há indícios concretos que houve mesmo uma violação.

Dois casos recentes que exemplificam bem essa situação são as agressões que ocorreram com a atriz Amber Heard, que acusou o seu ex-marido Johnny Depp de violência doméstica, e a também atriz e ex-modelo brasileira Luiza Brunet, que acusou seu ex-companheiro. Ambas divulgaram fotos para provar, contudo, suas declarações foram questionadas.

Outro jeito bastante peculiar da mídia retratar mulheres, é quando estas são namoradas ou ex-namoradas de algum homem famoso. Aparentemente, nestes casos, para ela, parece que a mulher não existe além de seu companheiro. Ela é sempre a “ex” ou a “namorada” e, muitas vezes mesmo que ela tenha uma fama equivalente, o seu nome não é revelado no título.

Nesta matéria sobre Bruna Marquezine e Neymar,  é possível ver que o nome de Marquezine é simplesmente omitido, citando a apenas como ex-namorada. E aqui, o nome da nadadora nem é citado no título da matéria. Ela é apenas indicada como “a namorada do piloto F-1”. Aliás, além de omitirem o nome da nadadora, também não colocaram qual é o nome do piloto.

Na publicidade, há anos as mulheres são representadas de maneira depreciativa e muitas vezes ofensiva. Quem não se lembra da campanha da empresa NET onde uma princesa encontra a felicidade ao transformar um sapo em um cartão de crédito, fazendo referência ao mito do príncipe encantado. Ou até mesmo, as centenas de propagandas de cervejas que insistem em sempre colocar a mulher como um objeto ou, até mesmo, reforçar o comportamento machista.

A marca de cerveja Skol foi responsável por um episódio no qual, em uma campanha para o carnaval de 2015, a marca insinuava frases de cunho machistas como: “Esqueci o não em casa”, “Tô na sua mesmo sem saber qual é a sua”, entre outras.

Esses são alguns dos muitos casos que podemos encontrar na mídia, em que muitas vezes a imagem da mulher, se não implicitamente desrespeitada, pode ser transformada em um tipo de caricatura composta de vários estereótipos. Muitos deles, ao invés de tentar se aproximar mais da realidade feminina, têm o objetivo de reforçar uma visão para agradar o universo masculino.

Vivemos uma época muito próspera para que a igualdade de gênero seja cada vez mais uma pauta no cotidiano. Porém, devemos admitir que se parte da mídia não acompanha esse raciocínio, não se esforça para dar um espaço mais coerente para as mulheres, evitando estereótipos, posicionamentos confortáveis e descreditar o que elas falam, o caminho será cada vez mais difícil para que esse ideal aconteça.

O Gay na TV

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Os poucos personagens gays que caíram no gosto popular brasileiro possuem uma característica em comum: São caricatos. Quando os personagens não se encaixam nessa categoria e acabam se aproximando de um comportamento mais natural, há uma dificuldade de aceitação da obra por parte do público. Como consequência o desempenho do personagem é afetado no decorrer da trama.

O que significa um personagem caricato? Caricaturas são uma distorção da realidade. São uma ou mais características marcantes, geralmente de senso comum e que não são necessariamente físicas, onde o resto da obra é formado. Quando se trata de gays em novelas, o que se vê é algo ligado a comédia, as diferenças do personagem são destacadas com intuito de entreter, mas não com a intenção de mostrar a sua humanidade.

Um bom exemplo, o personagem da novela Amor à Vida, Max Felix. Apesar de ser o vilão, fez um grande sucesso com o seu jeito espalhafatoso e seu humor negro. Por consequência, sofreu uma reviravolta: de vilão passou a ser o mocinho e foi responsável pelo primeiro beijo gay da emissora Globo. Mesmo com suas maldades, Felix, por ser um personagem caricato, obteve uma aceitação do público, que torceu para que o seu final fosse feliz.

Símbolo Lésbica

Entretanto, com a novela Babilônia, a história foi diferente. Dessa vez, os personagens eram duas mulheres idosas, praticamente casadas e que já nas primeiras cenas se beijaram. As duas não representavam nenhum dos estereótipos lésbicos que o público espera, não eram masculinizadas, não eram caricatas e não eram um casal jovem.

A repercussão foi tão negativa que alguns setores religiosos pediram para que o público boicotasse a novela, afetando até a direção da emissora que, como estratégia para melhorar a audiência, teve que cortar algumas cenas de afeto do casal. É importante dizer que diferente do que estamos acostumados a ver em novelas, as duas representam uma trama mais humana. 

Há muito tempo gays são retratados em novelas, em sua maioria, caricatos e humorísticos. Porém, o exemplo de rejeição que acompanhamos em relação as duas personagens na novela Babilônia, revelam ainda uma faceta bastante preconceituosa do público brasileiro. Aqui, fica claro que os telespectadores não se sentem à vontade com gays que não agem como o esperado.  

O desprezo, quase unânime ao casal, evidência que o público não aceita personagens gays que representam um drama real. Eles precisam entreter para agradar. Sendo assim, concluímos que não é que um personagem gay seja prejudicial para quem vê a trama, mas sim, que retratá-los de maneira natural é um atestado de que ser homossexual é normal e isso é uma coisa que o público não quer ver em sua TV.

Os G0ys e os outros

Utilizando o zero no lugar do A da palavra Gay, eles procuram se distanciar de qualquer associação ao movimento LGBTQ

Audiencia de Tv 2010 - Alan junior de Queiroz

O termo surgiu nos Estados Unidos em 2000 entre surfistas, skatistas e fraternidades masculinas. Goys são homens que possuem um relacionamento afetivo com outros homens, porém, sem a prática do sexo anal.

É um movimento em crescimento com um site “oficial”, blogs e comunidades no Facebook, inclusive, com adeptos no Brasil. No estatuto presente no site oficial, que exclui a participação de mulheres, os G0ys deixam claro que só consideram relacionamento afetivo o heterossexual.

É possível perceber que, em seu discurso, os G0ys querem se distanciar das definições LGBTQ. No site hétero G0y’s, por exemplo, encontramos a seguinte declaração: “NÃO NOS IDENTIFICAMOS com estereótipos que são promovidos pela comunidade GLBT e amar outros homens não tem nada a ver com jogar o papel feminino para o parceiro”.

Por outro lado observamos em seu comportamento que eles se afastam do modelo heterossexual padrão, em que uma pessoa só se relaciona sexualmente com outra do sexo oposto, justamente por estender seu comportamento sexual ao sexo equivalente. Ainda em seu site oficial, eles se apresentam como uma nova categoria de héteros.

Mas se analisarmos o discurso G0y notamos que não é exatamente um posicionamento tão moderno assim, já que eles não aceitam mulheres como participantes, mostrando uma posição misógina. No própria página, eles fazem questão de se chamarem de machistas, repudiando qualquer ligação com o sexo feminino.

Em outro texto encontrado no site hétero G0y, eles declaram que são heterossexuais mais liberais e que por uma questão de ética masculina, mantém um comportamento straight e apenas fazem “brincadeiras sacanas” com outros homens. Entenda brincadeira sacana como sexo oral e masturbação, praticando sexo com penetração apenas em mulheres. O que podemos concluir que, para os G0ys, o sexo oral não é considerado sexo.

E, talvez ai tenha uma grande contradição entre a teoria G0y e a prática. Nota-se que mesmo realizando ações que seriam consideradas homoafetivas, os G0ys não acham que isso os torna parte da comunidade LGBTQ. É possível que esse comportamento contraditório seja um sintoma da grande pressão moral e religiosa que não ser heterossexual representa para a nossa sociedade.

No final das contas, os G0y’s parecem representar a ideia de que a liberação sexual está muita mais avançada do que a do pensamento. Por isso, não há problema que a prática seja diferente da teoria.

Como a sexualidade de um G0y é definida como heterossexual, as manifestações homoafetivas são apenas uma escolha de vida para eles. Se relacionar afetivamente com outro igual não significa que você seja assim, por isso, não há necessidade de se envolver com o mundo LGBTQ.

Sobre aqueles com coragem…

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É difícil imaginar, no mundo de hoje, cheio de corporativismo, no qual o que mais prevalece é o que você tem e não o que você é. Que existam pessoas que escolhem ir na contramão desse movimento.

Claro que, inevitavelmente, somos guiados para o caminho do ganhe ganhe ganhe, e olha que eu nem comecei a falar sobre gastar demais. Apesar de que isso também tem a ver. E, nesse ritmo louco, onde a gente nem sabe direito se vai dar certo, até mesmo, aquelas carreiras que todo mundo diz que o emprego é garantido, que a gente encontra alguns casos de pessoas que largaram o óbvio pelo duvidoso.

Existem alguns exemplos, inclusive, pessoas que conseguiram uma boa popularidade na internet. Desde gente que largou a carreira de vendas de máquinas para fazer chapéus, até quem largou a estabilidade na publicidade para fazer um canal no youtube.

Eu não sei como isso atinge você, mas pra mim, toda vez que leio uma dessas histórias, eu fico mais inspirada.

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Eu fico feliz de saber que, mesmo com toda essa gosma que insiste em colocar a gente em uma forma para assim nos adaptarmos ao mundo, ainda assim, eu vejo gente com coragem suficiente para dizer chega. Para não seguir a manada, para ter a capacidade de dizer: Ei! Eu posso escolher.

Esse post é justamente sobre isso. É para dizer que é sempre bom lembrar que a gente pode. Mesmo que todo mundo não te apoie nas suas loucuras, o mundo é muito grande e há muitas pessoas que se arriscam e vão atrás daquilo que acreditam e você pode ser um deles.

Esse post é sobre isso, é sobre aqueles que têm coragem.